Cinema tem de exaltar a vida

Arnaldo Jabor 

Em 1990, filmei "Amor à Primeira Vista", uma co-produção franco-italiana para a TV que nem passou aqui. Depois, parei - de saco cheio de tanta ansiedade e frustração, os dois sentimentos básicos do cineasta.



As pessoas pensam que filmar é um piquenique. De vez em quando, algum "desconhecido intimo" me perguntava: "Como é? Quando vai filmar de novo?" Eu respondia: "Sei lá..." E o sujeito continuava: "Adorei aquele seu filme, o "Bye Bye Brasil"!.... "Não é meu" , resmungava. "Ahh...Cineasta é tudo igual...Alias, vocês levam um vidão, hein?" E me cochichava, com sórdida cumplicidade: "Vocês comem atrizes às pampas, hein?" E eu, como um "casanova" discreto: "Nem tanto...nem tanto..." - e fugia, sob a inveja do cara.


Passei 25 anos olhando o mundo através de ângulos de cinema: "Aquela mulher com uma lente 75mm, daria um close lindo, aquele casal correndo da chuva seria um "travelling" legal..."


Agora, matei a fome, pois não agüentava mais ficar apenas um comentarista vendo o horror do mundo, as vergonhas nacionais. Adoro o vasto mundo do jornalismo e tv. Mas, só política envenena a alma. Digo sempre: "É feito trabalhar no Instituto Butantã...um dia a cobra te morde...".


Agora, vinte anos depois, estou acabando "A Suprema Felicidade", um filme que se passa nos anos dourados do Rio, entre 1950 e 60. E não é para "conscientizar" ninguém.


Na época do Cinema Novo, vivíamos uma arte que "salvaria" o século, "mudaria cabeças"; buscávamos o chamado "especifico fílmico", utopia de imagem a ser atingida.


Neste filme só falo das coisas que conheci e vivi. Como dizia o Fellini: "a única objetividade que conheço é a subjetividade". Filmei por amor à arte, esta coisa meio antiga, neste mundo atual onde os filmes só têm cenas de 3 segundos, delirantes maneiras de você ver muito para nada ver. O antigo "autor" ou "diretor" virou um guarda de transito para atores: "Vai por ali, vem por aqui..."


O filme que fiz não quer provar nada. Claro que gostaria que fosse uma defesa quase "ecológica" contra a cultura de massas. Mas, quem sou eu, para desejar tanto?


No entanto, há sinais de que talvez comece uma renascença artística se parindo do mundo digital.


Por isso, amei o "Avatar" a primeira superprodução em que a tecnologia ficou a serviço da poesia. Acho que "Alice", do Tim Burton também vai ser assim. "Avatar" é um filme de autor. Existe ali um grande amor ao cinema, como no ultimo Tarantino, como nos anos 60, quando fazer cinema era paixão.


Lembro-me da ultima vez em que vi o cineasta francês Louis Malle, no Rio. Falamos dessa paixão, da fumaça dos cigarros "Gauloises", dos paletós surrados dos cinéfilos de Paris, dos papos-cabeça da "nouvelle vague", da magia do preto e branco, da aura sagrada que os cinemas de "shopping-centers" exterminaram, entre pipocas e cachorros-quentes, esse cinema que hoje é uma extensão das praças de alimentação.


Meses depois, Malle morria de câncer, como o Truffaut.


O cinema sempre buscou as massas; não vivia em guetos como a poesia ou pintura, mas tinha uma fome de "arte", visível mesmo nos filmes "comerciais", cf. "Cantando na Chuva" por ex.


Sem esse amor, cinema é um vídeo game em que somos as peças. Por isso, me lembro também de Humberto Mauro, o grande cineasta-fundador dos anos 20 e 30 que criou uma definição famosa sobre a antiga "Sétima Arte": "Cinema é cachoeira..." Por que ele dizia isso? Já contei isso, mas repito.


Quando ele fazia seus filmes em Cataguazes e na Cinedia do Rio, todo amigo que ele encontrava na rua dizia : "Humberto, meu querido, você precisa ir lá no meu sitio filmar a minha cachoeira. Você precisa ver que cachoeira!" E o Humberto Mauro ficava intrigado: "Por que sempre querem que eu filme cachoeiras?"


Um dia, ele deu uma palestra num cineclube e um jovem lançou-lhe a pergunta essencial: "Seu Mauro..qual é a alma do cinema?" Aí, o velho cineasta cunhou a definição eterna: "Cinema, meu filho, é...cachoeira!"


Tentei filmar assim: o fluxo da afetividade, da tentativa de alegria, do desejo de felicidade. Tentei um filme de aventuras emocionais. Arte tem de ser exaltação da vida. E hoje tudo está tão falso, tão virtual que imagino que alguma personagem poderia sair da tela , como na "Rosa Purpura do Cairo", e perguntar: "Hei!... Vocês aí - afinal, o que é (ou era) a realidade?" E nós responderíamos: "Realidade" é esta coisa aqui fora e dentro de nosso corpo, fluindo sem parar, é esse rio de signos, essa ilusão dos sentidos, esse mistério que teimamos em deslindar inutilmente, pois fazemos parte dele. "Realidade" é esta coisa sempre além da ciência, sempre além do sentido, do tempo e do espaço, inatingível, pois estamos todos boiando num infinito caldo-de-cultura, onde "parece" que boiamos; apenas "parece", pois somos também o caldo onde boiamos. A mosca e a sopa são a mesma coisa. Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério.


Quanto mais aberta for a maquina do mundo, mais vazia e indecifrável.


Por isso, a melhor metáfora para o cinema é a cachoeira mesmo - uma água que não pára de fluir. Não há uma realidade que finalmente se detenha e se configure; buscá-la, tanto no cinema como na filosofia é fracasso certo. Não há arte ou filme que dê conta do implacável fluir dessa cachoeira que se chama "vida". O drama dos séculos tem sido a tentativa de se alcançar uma resposta estática.


A própria idéia de "paraíso" na terra esconde (ou comprova) o desejo de parar o espaço e o tempo. O "paraíso" seria um lugar onde não houvesse a morte - nem cinema. Não há "cinema paraíso" (por isso, aquele filme italiano é tão ruim).


Somos uma cachoeira contemplando a outra. Nossas ações têm esse fracasso fundamental: jamais veremos um fim ou um inicio.


Cinema e vida são cachoeiras, como descobriu Humberto Mauro.

Fonte: A Gazeta

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